Conhecida como Quadrilátero da Morte pela população paulistana, a região da Avenida Dr. Arnaldo conta com nada menos que três cemitérios – o Cemitério do Araçá, católico; a Associação Cemitério dos Protestantes, que, como o próprio nome já diz, é protestante; e o Cemitério da Irmandade do Santíssimo, da Catedral de São Paulo – e um enorme complexo hospital composto pela Faculdade de Medicina da USP, O Instituto de Infectologia Emílio Ribas, o Instituto Dr. Arnaldo e o Hospital Geral Jesus Teixeira da Costa, além de uma entrada para o Hospital das Clínicas, um dos mais importantes para a América Latina.
Por que tantos cemitérios? Ainda mais numa região alta da cidade! O coveiro Osmair Camargo Cândido, “Fininho”, como é conhecido no Cemitério do Araçá, explica que isso foi “ação dos higienistas de São Paulo” por volta do século 19. Como os mortos podiam ser foco de transmissão de diversas doenças, foram afastados do resto da cidade.

Segundo Osmair, a parte que ladeia a Dr. Arnaldo foi adquirida algum tempo depois da fundação do cemitério, em 1887. Ele “começa de baixo pra cima, ali no que seria hoje o Campo dos Araçás”, diz. A parte mais antiga do lugar fica próxima ao Estádio do Pacaembu, no bairro de mesmo nome.
A grande maioria dos túmulos do Araçá está repleta de imigrantes italianos. “Os católicos não se misturam com ninguém”, diz o coveiro. Dentre as famílias mais importantes está a Cutrale, responsável por quase 30% das laranjas que são consumidas no mundo. Trata-se de uma capela suntuosa, construída com mármore trazido de Roma e cuja porta foi projetada por Raphael Galvez, principal artista do cemitério e que participou da semana de arte moderna. Ao lado da entrada dois arautos: um segurando um ampulheta e outro uma coroa de louros, representando a recompensa após o tempo de vida sob o catolicismo.
Dentre os mais de 40 mil túmulos do Araçá, vale citar o de Haroldo de Campos, um dos fundadores do concretismo; de Nair Bello, a “melhor atriz de todos os tempos”; do escritor José Mauro de Vasconcelos, autor de Meu Pé de Laranja Lima e que é visitado por uma prima todo mês de outubro; Eonice Rossi, musa inspiradora da canção Amada Amante, de Roberto Carlos; de Cacilda Becker, uma das figuras de maior destaque do teatro nacional; do jornalista Assis Chateaubriand, que teve placa e dizeres roubados; e da poetisa Francisca Julia da Silva, que possuía uma enorme escultura em mármore branco do escultor Victor Brecheret, levada pela Associação Amigos da Pinacoteca em 2007 e substituída por uma cópia de bronze.
O filósofo Osmair (de fato, ele é formado em Filosofia pelo Mackenzie) me leva por todo o cemitério, um espaço de cerca de 222 mil m², falando sobre os drogados, bêbados e desocupados que freqüentam o cemitério, a enorme quantidade de gatos que o têm por morada e são alimentados por algumas senhoras (se você vir lingüiça crua picada sobre um túmulo, não é macumba, é para os gatos), sobre homens e mulheres que tomam banho nas torneiras do Araçá e muitas vezes são filmados por “animais”, e pessoas que se fecham no mirante do cemitério para fazer sexo.
O coveiro aponta símbolos e objetos escatológicos presentes nos túmulos, como cruzes cortadas ao meio, no caso de suicidas, o morcego esculpido no alto da capela da família Mollica, e as letras gregas Alpha e Ômega no túmulo da família Bei. O cemitério conta ainda com um túmulo muçulmano disfarçado, de Rocco Pescuma, e uma capela muçulmana assumida: a da família Mustaphá Amad, com dizeres árabes e uma cúpula em estilo mouro.
A parte mais antiga do cemitério tem túmulos simples e árvores majestosas. Ciprestes centenários de troncos grossos estão presentes em todas as alamedas do lugar.
Passando pelas embalagens de sabonete Palmolive usados pelos que ali se banham, encontramos alguns túmulos recentes. É fácil saber quais são, basta ver a nuvem de mosquitos sobre o jazigo. Encontramos também uma horta que os próprios funcionários cultivam entre as sepulturas.
Vale lembrar ainda o “Columbário” do cemitério, que abriga corpos de pessoas não identificadas, muitas delas no período da ditadura, um memorial de guerra dos italianos e um ponto de peregrinação: a sepultura do “Grande Guga”. Esse túmulo tem a foto de um jovem, João dos Santos Franco Sobrinho, e seus familiares, sendo que todos eram da umbanda. Atrás do jazigo, uma capelinha onde são feitas preces e oferendas.
Osmair é um amante das artes e da filosofia. Um homem da razão, como ele mesmo diz. Conhece todos os túmulos e as curiosidades do cemitério, mas é proibido de contar “histórias estranhas” ou lendas do local. Planta árvores para alimentar as várias espécies de pássaros que habitam o Araçá. O coveiro gosta da profissão e já sepultou mais de três mil defuntos, inclusive à noite e sozinho.
Outras informações sobre a Dr. Arnaldo
Subprefeitura: Pinheiros
Bairro: Jardim Paulista e Perdizes
Início:Complexo Viário Paulista/Rebouças/Dr. Arnaldo
Término: Avenida Professor Alfonso Bovero
Comprimento: 2300 m
Ruas Afluentes: Rua Oscar Freire, Rua Cardoso de Almeida, Rua Teodoro Sampaio, Rua Cardeal Arcoverde, Avenida Rebouças, Avenida Paulista
Abertura: 1931
Designação anterior: Avenida Municipal
Comércio que predomina: Floriculturas
Está aí uma das coisas que eu não sabia sobre São Paulo…
apesar de eu ser do interior…acho interessante a iniciativa do blog…ótma matéria para uma sexta-feira 13! rs
;*
Além dos cemitérios serem históricos é bom lembrar que é ótimo ficar desenhando por estas bandas: tem cada estátua maravilhosa, e as vezes, passa alguma gótica bonitinha e vem ver o que vc está fazendo…
E eu aqui pensando que era preciso ir até o PèreLachaise para fazer turismo tumular…
Muito bom este post!
Olá Luiza,
Estou pesquisando sobre os nomes de bairros e lugares marcantes da cidade de São Paulo, que foram dados porque nesses locais haviam árvores nativas. Seria possível que no terreno do cemitério houvessem muitas árvores de araçá? Assim como no Cambuci e no Pinheiros que tinham árvores desse nome?
Talvez em sua pesquisa você soube de alguma informação assim que possa complementar a minha…
Grata
Olá,
Gostei muito do seu texto. Estudo a arte dos túmulos desde 2005 e atualmente estou buscando referências sobre a escatologia. Achei muito interessante o que vc comentou sobre as cruzes cortadas ao meio representar tumulos de suicidas. Por favor, se vc tiver mais referências envie para mim via email, milene.arte@gmail.com .
Grata,
Milene