Sábado frio e nebuloso em São Paulo. Momento propício para uma volta em uma das ruas mais famosas e movimentadas da cidade: Rua 25 de março. O dia não foi o mais indicado para dirigir-se ao local. Véspera do Dia das Mães sempre atrai compradores de última hora que se juntam aos milhares de sacoleiros de todas as partes do Brasil, transformando a já lotada via em um verdadeiro mar de pessoas, acotovelando-se em busca das melhores ofertas, boas promoções e ótimas oportunidades para pechinchar.

Localizada entre a Avenida Rangel Pestana e a Rua Paula Souza, a Rua 25 de março possui, ao longo de seus dois quilômetros, lojas para todos os produtos, de todas as variedades e disponibilidade. Desde grandes lojas como a “Armarinhos Fernando”, com sua destacada fachada, que leva todo um quarteirão, até pequenos vendedores ambulantes, os famosos “camelôs”.
Esse, aliás, é dos capítulos à parte da história da rua. A convivência entre lojistas e camelôs parece tranqüila na maior parte do tempo. Segundo José Mário Pinto, o “Zé Martelo”, alcunha dada pelas ferramentas que comercializa, o problema começa quando fiscais da Prefeitura vão até o local e, segundo, pressionam os comerciantes legalizados. O ambulante afirma que muitos dos gerentes e funcionários das lojas são colegas e convive a maior parte do tempo “numa boa”.
“Zé Martelo” é cearense, trabalha no local há pouco mais de um ano. Possui mulher e quatro filhos na cidade de Crato, no interior do Ceará. Com o comércio ambulante de ferramentas consegue cerca de R$ 1.000, 00 por mês, dos quais cerca metade vai para a família. Ele diz que no estado nordestino jamais conseguiu oportunidade semelhante: “Lá é mais difícil. Mesmo na capital (Fortaleza) eu só conseguia trabalho de pedreiro de vez em quando. Nunca tirava mais que 500 reais. Quando nasceu meu menino mais novo vim pra São Paulo. Foi o jeito”. Ele diz que já pensa em trazer a família toda para São Paulo e colocar o filho mais velho para ajudá-lo no trabalho: “Eu acho que já dá pra ele me dar uma mão por aqui. E eu preciso de um herdeiro, né?!”. Durante a conversa uma grande variedade de ferramentas foi oferecida. Desde pequenos alicates até martelo automatizados que, segundo o vendedor, “são importados da Europa”.
Se pelo lado dos camelôs a convivência é amistosa, essa não parece ser a visão dos lojistas. T. J., gerente de um varejo de cama, mesa e banho, que preferiu não identificar-se, diz que muitos dos camelôs são “folgados e espaçosos”. Segundo o gerente eles fazem ofertas muito mais baixas dos mesmos produtos vendidos na loja que gerencia: “Como eles não pagam impostos fica muito mais fácil abaixar o preço. E eles fazem de provocação. Outro dia um deles veio até a frente da loja e começou a oferecer um produto da vitrine pela metade do preço, dizendo que nós só queríamos lucrar. Tive que chamar o segurança e expulsa-lo. Depois falam que nós é que queremos briga. Eles que provocam. É de propósito”.
História

Poucas pessoas que circulam, trabalham, ou apenas conhecem a fama da 25 de março sabem sua história. A curiosidade maior fica por conta de que a rua era um rio, que seguia o traçado do Tamanduateí, naquela época navegável.
A via recebeu esse nome em 1865, em homenagem à primeira Constituição do país, promulgada em 25 de março de 1824. Antes já fora chamada de Rua Várzea do Glicério, Rua das Sete Voltas e Rua de Baixo.

Os registros indicam que a primeira loja aberta no local foi a “Nami Jafet & Irmãos”, em 1893. O progresso veio rapidamente. Em 1901 já eram cerca de 500 pequenas lojas que deram origem à grande miscelânea de comerciantes atuais: além dos sírios e libaneses, que se destacam como os líderes da região, convivem também gregos, portugueses, coreanos e chineses, formando um caldo cultural interessante na região.
A rua destaca-se hoje por muitos motivos e vale uma conferida para quem busca preços baixos, variedades de produtos, atacado ou varejo, ou mesmo para quem está só interessado em “bater perna” e conhecer um pouco mais o principal centro de comércio da cidade de São Paulo.